Nota importante: esse post recebeu um número grande de comentários; eu acho importante lembrar que os que postaram aqui me criticando, desafiando ou atacando pessoalmente não necessariamente são da equipe do Librix ou têm ligações com a equipe; eu prefiro dar o benefício da dúvida, e convido a quem quer que leia os comentários a fazer o mesmo.
Sumário
Minha irmã é, desde há muito tempo, uma feliz usuária de Debian e GNOME. Ela costuma usar o sistema sem muitos problemas, e aprendeu a usar Gimp e outras coisas que ela inclusive procurou e instalou em Windows quando teve de usar esse SO inferior. Pois bem… minha mãe resolveu dar de aniversário para a Laura esse ano um notebook, e comprou o Infoway W7645, que vem com o sistema “Librix” pré-instalado.
Antes de continuar, um resumo do que eu achei do produto: hardware muito bom, dado o preço baixo; o processador é um Pentium Dual Core, com 1MB de cache L2. Não é nenhum centrino, mas é um bom processador. O notebook tem 1GB de memória RAM, chipset de vídeo Intel GM965/GL960, e wireless RealTek, conectada no bus USB. Eu gostei da tela, maior que 15 polegadas; o notebook tem 2 portas USB, e no geral eu senti que o computador tinha tudo do lado “errado”, o que não chega a ser um problema: o CD-ROM está do lado esquerdo, junto com as portas USB, a do modem e entradas de fone e mic, com leitor de cartão, entrada do cabo de força e saída de ar quente(!) do lado direito. Não é nada difícil o cabo de força ficar tomando ar quente o tempo todo.
O mouse pad é confortável (bem mais que o do meu HP Pavilion). As caixinhas de som deixam muito a desejar, mas nada que não se contorne com caixas externas ou um fone. A tomada, com 2 pinos redondos, é adaptada à nossa realidade. Uma coisa que me deixou meio assim é que os LEDs da porta ethernet não parecem funcionar para indicar link – talvez um OSMAR daqueles. No geral um bom notebook.
Já o software… um lixo.
O Librix é um derivado de Gentoo(!), criado originalmente pelo Laboratório de Administração de Sistemas e Segurança (LAS-IC) da UNICAMP sob o nome Tutoo Linux. Rodando com um kernel 2.6.22, ele usa um KDE versão 3.5.x, e a maior parte do sistema é instalada com o sistema Portage, do Gentoo. Alguns softwares, incluindo diversos softwares proprietários como o Skype, Flash e Java e alguns livres, como o Firefox, são instalados no diretório /opt; e viva a FHS.
Um ponto quase positivo é que na página do Librix é possível encontrar links para baixar os “fontes”. Infelizmente isso não parece ser possível para a versão 3.0, que acompanha o notebook em questão.
Analisando o Librix
Eu acho sensacional ver fabricantes de hardware finalmente pré-instalando sistemas GNU/Linux. É bom saber que o imposto Windows está deixando de ser obrigatório. Agora… quem me conhece vai provavelmente imaginar que eu fiquei tonto de pavor quando vi tudo isso: eu não sou um grande fã de Gentoo, nem de KDE, mas principalmente não de software proprietário que teoricamente não pode ser redistribuído como está sendo feito.
No primeiro boot o Librix pede que você configure uma senha de root e crie usuários. Ele te diz em uma mensagem proeminentemente colocada que você não deve usar root para tarefas cotidianas. Depois de responder a isso tudo ele te deixa logado como root no seu KDE. Quando você faz logout o KDM está com root como o usuário já escrito. Uma forma muito boa de ajudar o usuário a fazer tudo errado.

A próxima coisa que eu tentei fazer depois do boot foi conectar-me à rede wireless aqui de casa. Eu uso um AP linksys rodando DD-WRT, configurado com criptografia WPA2-Personal. Depois de um tempo tentando entender que magias eu tenho que conjurar para que ele me mostre as redes disponíveis eu finalmente encontro habilmente escondido no menu principal, no submenu ‘Sistema’, o KWifiManager, com uma descrição tímida: Configurador wireless.

Vocês que como eu têm algum tempo de desktop livre vão adorar essa ferramenta, dada a sensação de ter voltado no tempo que ela causa. Ele torna se conectar a uma rede wireless uma coisa complicada! Clicar em um ícone, escolher a rede, digitar a senha e começar a navegar? Pra que se eu posso ter uma interface esquisita com um botão “Procurar por redes” que sempre que eu clico me mostra uma nova janela com uma lista das redes encotradas?

Em defesa do kwifmanager eu devo dizer que ele prontamente se conectou à rede ‘default’ de algum vizinho descuidado, embora nem sempre o gateway default ficasse corretamente configurado. Acontece que a minha rede é a de ESSID ‘emacs’. Eu clico nela, clico duas vezes, e nada… nada de o botão ‘Mudar para rede’ ficar habilitado, também. Finalmente eu tento abrir a tela de configurações que aumenta ainda mais a minha sensação de ter voltado alguns anos no tempo! Olha que bonito, eu tenho uma tela de configuração que parece um formulário do governo, em que eu posso inclusive especificar um script shell para lidar com DHCP pra mim! Sim, porque DHCP é uma coisa nova e complicada. De qualquer forma, nada feito… se isso um dia funcionar, aparentemente vai ser só com WEP, e eu não estou disposto.
Não havendo outro jeito, e já que eu já estava alguns anos no passado mesmo, peguei um cabo de rede e liguei no notebook. Com rede, então, resolvi testar o “Tutoo Portage Manager”, TPM. Chique demais esse nome. Mas então, aparentemente a Itautec não fez um planejamento muito adequado quando se trata das atualizações do seu sistema: o TPM me deu uma mensagem de erro dizendo que não conseguiu baixar um ‘novo pacote de atualizações’ e me disse para conferir minha conexão com a Internet e espaço em disco. Bom, nenhum desses era o problema, mas aparentemente o fato de a Itautec ter removido o arquivo do lugar em que ele devia estar. Clicando em ‘Detalhes’ eu me deparei com uma tela muito simples de ser entendida pelo usuário comum: a saída do comando wget dedurando o 404 Not Found.

Por fim, achei uma coisa muito engraçada: um ls no raiz do Librix nos dá isso:
Librix:/# ls
bin dev home lib media opt root sys usr wacom_drv.so
boot etc L3031011.sw lost+found mnt proc sbin tmp var
Librix:/# cat L3031011.sw
2041L3031011 SWP LIBRIX 3.0 W7645 HD160
Hahaha… Sinceramente, né? Quando você acha que não pode ficar mais amador você encontra um driver de input do X e um arquivo txt com informações do hardware no diretório raiz. Querem me matar de rir =).
Conclusão
Eu não planejava deixar o Librix instalado no computador, é claro. Pra que deixar um frankenstein baseado em Gentoo rodando em um bom hardware? Instalar Debian Lenny nesse bichinho foi uma brisa. A única coisa que dá um pouquinho de trabalho é a placa de rede wireless, que não é suportada pelo Linux 2.6.26; bastou fazer upgrade para o 2.6.28 que eu pude usar o NetworkManager do meu GNOME e voltar a me sentir definitivamente no ano 2009.

Me assusta a Itautec gastar tempo e dinheiro e associar sua marca a um sistema tão mal-feito que só me permite classificá-lo como ‘porcaria’. Uma vergonha também para o time da UNICAMP, na minha opinião. Com Debian, Fedora, Ubuntu, Mandriva e um sem-número de outras distribuições bem feitas e que podem ser usadas sem licenciamento por aí, pra que contratar um time de pessoas que aparentemente não sabe o que está fazendo para criar um sistema de quinta categoria? E não me venham com a mentirada do 100% nacional. Eu não me importo se vocês acham que ‘nacional’ é melhor, e 100 é um número grande demais.
Posso parecer um pouco negativo, e minha crítica pode parecer pouco construtiva, mas o fato é que esse tipo de trabalho amador (mesmo que o manual do Librix o chame de ‘profissional’, a realidade é que ele parece ter sido feito por gente que não sabe o básico) acaba por causar uma fama ruim para o GNU/Linux: os usuários não costumam saber que ao invés do KDE existe o GNOME, e que ao invés do frankenstein existem distribuições bem-mantidas, e acabam colocando tudo num mesmo balaio: “Linux não presta”, dizem erroneamente. Eu ouço isso direto, e quando vou saber a pessoa conheceu “Kurumin”, “Satux”, “Librix” e outras porcarias que insistem não só em usar KDE, que não é um desktop adequado para uso de massa, na minha opinião, mas em criar uma infra-estrutura muito mal-feita por baixo.
Então, Itautec, parabéns pela iniciativa, e pelo bom hardware e, por favor, comece a pré-instalar uma distribuição de qualidade, por favor.
Nota sobre KDE: KDE não é um desktop ruim, per se, mas foca muito mais em flexibilidade, configurabilidade e features para “power users”, o que o torna ideal para entusiastas e para diversos geeks, mas complicado e presente demais para alguém que não se interessa por desktop; um bom desktop para essas pessoas “some” o máximo possível, deixando o usuário fazer o trabalho dele. Em defesa do KDE, o pessoal do Librix poderia ter feito uma instalação muito mais bem-feita do KDE, e ter usado o KNetworkManager.