O pior cego é aquele que não quer ver

Cegueira ideológica e Tribalismo

Muita gente repete que o pior cego é o que não quer ver, mas muito pouca gente me parece refletir a respeito do que isso quer de fato dizer. O Mark Shuttleworth fez há pouco tempo um post em seu blog que eu acho que vai no ponto exato da questão quando fala de algo que ele chama de “tribalismo“.

Eu tenho chamado esse comportamento de “cegueira ideológica”, mas acho que vou adotar o termo dele, que é bem mais simples e acho que bem mais correto, porque não se trata apenas de ideologia! Ele fala de 2 tipos de argumento que aparecem muito nos discursos tribalizados: “o outro pessoal nunca fez nada” (muito comum nas campanhas políticas, inclusive) e “evidência que contraria minha crença/visão não conta”.

Esse tipo de comportamento tribal aparece nas mais diversas áreas da nossa vida. Torcedores de futebol, defensores de uma determinada tecnologia ou ideia, militantes de um partido (ou, no Brasil, indivíduo!). Recentemente várias coisas interessantes aconteceram que me fizeram pensar mais e mais nesse tipo de comportamento.

O mais recente foi o processo movido pela Oracle contra o Google por violação de patentes relacionadas ao Java no Android. Não é segredo pra ninguém que eu não gosto de Java. Esse meu desgosto pela tecnologia é multi-facetado: eu não gosto da sintaxe, acho que tecnologias Java costumam complicar muito mais do que o necessário e pra piorar toda a situação nós não tínhamos uma implementação livre. Meus problemas com a tecnologia foram diminuindo com o tempo em razão de vários progressos que foram feitos – VMs livres começaram a aparecer, a própria Sun liberou as partes que podia da sua VM e por aí vai. Gostando ou não, eu acho importante que Java seja uma das ferramentas disponíveis para a realização da liberdade de software e vejo na ação da Oracle uma grande ameaça que precisa ser rechaçada.

O Java é Livre! Oh really?

Muitos anos atrás, no entanto, era comum encontrar gente que se dizia defensora de Software Livre advogando uso de Java – numa época em que nós sequer tínhamos uma implementação livre da VM e das bibliotecas básicas. Um dos principais argumentos era que a especificação era aberta e construída de forma aberta, também. Eu acho ambas as afirmações muito discutíveis, mas como elas são irrelevantes para a discussão atual não vou aprofundar agora.

Com o surgimento do .NET, seguido do Mono, uma alternativa viável ao Java como linguagem de alto nível baseada em uma VM poderosa começou a se desenhar – e com uma implementação livre! Aplicações úteis e interessantes começaram a aparecer no desktop livre, coisa que nunca houve com Java. Não demorou quase nada para esses defensores de Java caírem de pau no Mono, é claro – .NET é uma tecnologia da Microsoft, recheada de patentes, certamente, diziam. A Microsoft vai querer destruir a comunidade de SL na primeira oportunidade – assim que dependêssemos o suficiente do Mono. Eles não estavam errados, note, eles estavam muito certos e embora os riscos tenham sido diminuídos com o tempo por várias razões eles ainda são bem reais! Mas os mesmos riscos que eles viam no Mono também existiam para o Java, sempre existiram, mas eles se negavam a ver ou concordar. “A Sun é muito mais comprometida com a liberdade que a Microsoft” diziam eles. Yeah, sure.

Eu não estou argumentando que eles deviam deixar Java de lado, note bem. Eu acho que eles deviam sim, como fizeram, ter lutado para que Java fosse mais uma opção para nossa comunidade criar e exercer suas liberdades. Eu respeitaria qualquer um que dissesse “Sim, eu reconheço e assumo os riscos. Se um dia chegar a esse pior caso eu vou lutar para defender nossa liberdade frente às patentes”. Agora, 6-10 anos depois, chegou a hora da tribo do Java rever os seus conceitos e de nós todos, como comunidade, ajudarmos na defesa do Google!

E não para por aí, infelizmente.

O tribalismo não para por aí, infelizmente. É comum encontrar diversos casos em que as pessoas propagam informações a favor do que defende sem verificar (se é a favor tem que estar certo, né?) e de achar cabelo em ovo nas informações que são contra seus defendidos ou a favor dos seus “inimigos” (da época). Isso aconteceu no caso em que se divulgou por exemplo que o Windows 7 usava código do Linux, quando na verdade uma ferramenta secundária que sequer é distribuída junto com o Windows 7 usava código GPL de uma outra ferramenta publicada no Codeplex da Microsoft, que não tinha nada a ver com o Linux.

Isso também acontece sempre nas campanhas políticas, é claro e eu não paro de rir de gente fazendo defesas absurdas e fazendo a caveira dos inimigos de ocasião. Isso acaba por fazer que os debates sobre o que as pessoas defendem de fato fiquem em segundo plano, substituídos por etiquetas simplistas e simplificadoras e por discursos populistas de todos os lados.

Outro alvo recente de tribalismo é o Google. Nosso aliado em várias frentes é inegável que o Google também tem várias atitudes que ferem a sua promessa de não ser “evil”. Apesar disso, há aqueles que fazem uma defesa quase incondicional do Google, assim como há aqueles que só fazem a caveira.

É preciso ver que, como qualquer organização grande o Google tem várias forças puxando para lados distintos. De um lado, um grande usuário de tecnologias livres, um grande desenvolvedor de softwares livres, com contribuições de vulto tanto em projetos novos como em projetos existentes, um garoto propaganda da liberdade e abertura na web, inclusive com enormes contribuições para esse objetivo. De outro lado, falta de sensibilidade no tratamento da privacidade de seus usuários, mudanças de posição inesperadas com relação à política de neutralidade da rede, discriminação de minorias, síndrome do “Not Invented Here”, com projetos novos sendo criados ao invés de colaborar com já existentes e por aí vai. É importante reconhecer e tratar cada uma dessas facetas de forma separada, sem fazer defesas ou caveiras incondicionalmente.

Veja também

Alguns outros posts interessantes sobre o assunto Oracle vs Google:

4 thoughts on “O pior cego é aquele que não quer ver

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