10 anos de Software Livre (ou uma pequena auto-biografia)

Era uma vez, no dia 23 de dezembro de 2008, no canal de IRC do Epiphany:

<reinouts> in two days, it's Epiphany's 6th anniversary!
<chpe> oh, you're right :)
<kov> I'm getting old =P

Pois é. Há mais de 6 anos que eu uso Epiphany. Finalmente em 2008 eu comecei a contribuir de fato com o meu navegador preferido, contribuindo alguns patches para o projeto WebKit/GTK+ e para o próprio Epiphany, mas ele já contribui comigo na beleza e simplicidade há um bom tempo. Antes disso eu usava Galeon (que é de onde vem o Epiphany), antes disso Mozillão, e antes disso links!

Mas vamos voltar um pouco mais: em 1998 eu morava ainda em Campo Belo, sul de Minas. É uma cidade pequena, e tecnologia demoraaava a chegar lá. Já havia uns 2 anos que eu tinha um 486 DX2, e finalmente eu comecei a brincar com Internet. Eu tinha interesse em programação, e comecei a me interessar mais por Internet. Um primo do meu amigo Thiago Miserani (por onde será que anda?), também chamado Tiago, mas vindo de Manaus, levou para Campo Belo um laptop com slackware instalado, naquele ano, e eu fiquei apaixonado. Pedi para minha mãe comprar pra mim um ‘Linux’ (eu falava errado, na época ;)) quando foi um dia a Belo Horizonte, mas ela rodou muitas lojas e não achou.

Finalmente descobri que a Conectiva vendia caixinhas pelo correio, e já no final de 1998 eu tinha minha caixinha de Conectiva Marumbi, e estava ralando que nem um condenado para fazer minhas placas de vídeo, som, e modem funcionarem. Foi tempo até eu descobrir o que era pnpdump e /etc/isapnp.conf! O The Linux Manual (que ainda existe!), escrito pelo Hugo Cisneiros, também conhecido como Eitch me ajudou muito na época. Eu acho que esse deve ter sido o guia mais importante para muitos de nós que começamos nessa época.

Em 1999 eu tinha fundado um canal, #linux-br, na rede de IRC Brasirc, e nós éramos um grupo grande de amigos trocando idéias e experiências. Eu tinha começado a saber sobre outras distribuições, e acabei me interessando por testar o tal Slackware. Um colega do canal, psych (por onde anda? =)), me disse que ia comprar um tal de Debian, e sugeriu que eu fizesse o mesmo, porque poderíamos nos ajudar. Comprei, apesar de achar o nome muito esquisito. E não podia ter feito coisa melhor. Enquanto descobria as maravilhas técnicas do Debian e o recém-criado APT (o apt não vinha no Debian hamm, que eu comprei, mas vinha como um ‘addon’ no CD), descobri também o curso de C do departamento de Engenharia Elétrica da UFMG (que eu continuo a recomendar!), e comecei a aprender a programar, usando o maravilhoso toolchain do projeto GNU.

O Debian me ensinou o que é Software Livre, e através do seu Contrato Social, me ensinou a importância de defender com unhas e dentes a liberdade que eu tinha tido de aprender, usar e distribuir o software. O resultado de tudo isso é que em 2000 eu já era um contribuidor apaixonado, traduzindo guias e começando a ler código. Eu usava tudo em console (não xterm! console, mesmo) naquele tempo, porque meu computador (ainda o 486) não era poderoso o suficiente para rodar quase nada. Um fato interessante: eu acabei o curso de C e aprendi a lidar com diretórios lendo o código do ls, que era bem mais complexo do que eu imaginava!

No final de 2000 eu tinha escrito meu primeiro programa em C com alguma utilidade, o gklog, uma ferramentinha muito simples que coloria logs baseado em palavras definidas pelo usuário. Algum tempo atrás eu descobri que ainda existem referências a ele na Internet; inclusive em um site de software para HP-UX! É um jeito interessante que eu tenho até hoje de demonstrar que eu tenho 8 anos de experiência com programação em C =D. Também entrei para o processo de novos mantenedores do Debian nessa época.

Em janeiro de 2001 eu me tornei o quarto desenvolvedor Debian do Brasil, e comecei a contribuir com o empacotamento de diversos pacotes simples; nesse ano eu participei pela primeira vez do FISL e acabei dando uma palestra junto com os outros 3 desenvolvedores Debian, na sala principal, de improviso. Foi nesse ano que eu finalmente troquei meu 486 por um K6 II, e pude usar o que eu queria: GNOME com Enlightenment! Nessa época, também, eu escrevi algumas versões do gkdial, falecido discador em GTK+ que eu me assustei de saber que algumas distribuições com foco minimalista e para dispositivos “embedded” ainda usavam (usam?) até recentemente! Nesse ano eu fiz meu primeiro trabalho remunerado relacionado a Software Livre: um curso de administração ‘Linux’ Conectiva, de 1 mês, na Linux Place, aqui mesmo em Belo Horizonte. Foi muito bacana.

De 2002 a 2004 minha contribuição com software livre foi constante, mas não há nada que eu destaque como muito importante tirando o APT-HOWTO, que eu acabei no final de 2001, mas que foi traduzido para o inglês pelo Steve Langasek em 2002, o que o levou a finalmente se tornar popular e traduzido em diversos idiomas. Em 2002 eu também fiz diversos trabalhos remunerados relacionados com Debian, o que foi bastante interessante =).

Em 2004 eu escrevi a primeira versão do gksu, que hoje é usado por quase qualquer pessoa que se aventure em um desktop GNOME do Debian ou do Ubuntu. Aliás, foi nesse ano também que eu participei da minha primeira Debconf, em que, inclusive, o Ubuntu foi anunciado pelo Mark Shuttleworth em uma BOF. Sobre o gksu, foi só no ano passado que eu comecei o muito necesário reprojeto do gksu, para finalmente consertar as maiores limitações estruturais dele.

Acho que fico por aqui, que o post já tá bem longo… se bobear eu conto mais da história de 2005 pra cá. É interessante lembrar das coisas que a gente fez tanto tempo atrás, e comparar com como a gente encara as coisas hoje em dia, e pensar sobre se e como a gente progrediu nas diversas facetas da vida.

Na viagem pra a Latinoware ano passado aconteceu uma coisa que me fez pensar bastante sobre isso: quando eu respondi a pergunta de um companheiro de viagem sobre contribuição com software livre dizendo que contribuo com Debian e GNOME ele fez cara de espanto e falou “você trabalha com Debian mesmo, então?”, que eu entendi como “então você não usa Ubuntu? Achei um dinossauro!” lol =D

Outra coisa que passou muito pela minha cabeça nos últimos tempos é quanto Debian e GNOME foram cruciais na minha formação como programador e sysadmin. Eu só tenho alguma noção do que é um bom design de software porque estive sempre perto de gente que faz coisas muito bem-feitas e que são Software Livre. Algumas vezes só olhando o que eles faziam, outras recebendo críticas ou conselhos deles a respeito de coisas que eu projetava e escrevia. Não tem preço.

14 Responses to “10 anos de Software Livre (ou uma pequena auto-biografia)”

  1. Evandro Viana Says:

    Cara , parabens! Quem foram os outros 3 desenvolvedores Debian ná epoca ?

  2. kov Says:

    Hup!

    Lalo Martins, que hoje não é mais DD, Eduardo Maçan (discute-se quem foi o primeiro =)), e Henrique de Moraes Holschuh.

    =)

  3. Paulo Geyer Says:

    tu vê, aquela época de computadores lentos e programação C tinha uma certa mágica, estive sempre em contato com o pessoal do Debian, pena que eu só ficava por lá falando besteira, ao menos eu dava suporte a alguns usuários :)

    abraços!
    paul0

  4. kov Says:

    @Paulo mas você fala como se programação C fosse uma coisa do passado! Programação C nunca foi tão presente na minha vida, com glib/GObject =)

  5. Michel Filipe Says:

    Fala kov!

    Muito interessante a sua história. Só fiquei curioso com uma coisa: você não passou por nenhuma empresa onde ela se tornou inesquecível pelo fato de ser tão tosca? Achava que era padrão de todo programador. Hahahaha!

    Abraços!

  6. kov Says:

    @Michel hehe, então, eu certamente passei por muitas coisas que achei toscas, nos mais diversos níveis de tosquice, mas eu não considero que nenhum dos meus trabalhos formais até hoje tenha sido intimamente ligado ao meu trabalho como desenvolvedor de Software Livre, nem foram tão definitivos quanto Debian e GNOME com relação ao meu crescimento técnico =).

  7. Walter Cruz Says:

    Parabéns cara! Eu uso Linux desde 99, mas minhas contribuições são bem mais modestas que as suas ;) Obrigado por compartilhar seu código!

  8. Marcelo Lemos Says:

    Eu boto fé na continuação do post!
    Gostei da auto-biografia =P

    Abraços! ;)

  9. Rafael Evangelista Says:

    Cara, muito interessante o modo como vc conta a sua história com o software livre.

    Eu boto fé na continuação do post!
    Gostei da auto-biografia =P [2]

  10. kov Says:

    @Rafae e @Marcelol: aopa =), eu acho que lembrar de como foi nosso passado recente, e de como chegamos até aqui é sempre uma boa coisa de fazer… pensei muito em escrever alguma coisa mais bem pensada sobre a história do SL em geral… a evolução de KDE e GNOME, e das distribuições… problemas que foram vividos por muita gente, como as mudanças de ABI do gcc, a chegada de HAL/DBus e coisas assim, mas isso fica pra outra oportunidade, com mais tempo =)

    Acho que continuo a história, sim, com o correr do ano. Vamos ver =)

    Abraço,

  11. André Luís Lopes Says:

    Eu boto fé na continuação do post!
    Gostei da auto-biografia =P [3]

    E, adicionalmente, agora que você comentou sobre a escrita das histórias mais bem pensadas, eu não vou sossegar até poder lê-las :-)

  12. pascoal Says:

    Parabens pela autobiografia, mas para sua autobiografica ficar realmente boa e preciso colocar tambem os tombos que deu e os inumeros inimigo que as vezes de graça que arranjou.

    http://blog.kov.eti.br/?p=19

    http://blog.kov.eti.br/?p=53

    A humildade e uma da coisas que mais engrandecem o homem, e voce é um exemplo de que desconhece o termo, vamos ver se voce aprenceu alguma coisa.

    Abraço KOV

  13. kov Says:

    @pascoal: obrigado.

    Eu dei muitos tombos, fiz muita coisa errada, e continuo fazendo. Não sou perfeito, nem quero ser. Mas eu não acho que os exemplos que você deu são exemplos de tombos meus.

    Muito pelo contrário. Eu acho que esses são bons exemplos da minha opinião forte, e de como algumas pessoas têm dificuldades em receber críticas, ou de aceitar que é possível haver alguém no mundo que ache o trabalho delas mal-feito.

    Eu nunca tive medo de ganhar inimigos (tenho mais do que você imagina =)); especialmente se os inimigos que eu ganhar forem pessoas sem noção como você. Agora, eu já entendi que você está adorando aprender mais sobre mim, e ficar tentando achar algum defeito que valha à pena. Eu te convido a continuar. É bem provável que você vai achar muitos, mas eu garanto que nada tão baixo quanto você.

    Por falar nisso, você devia aprender alguma coisa a respeito de encoding. Que tal você ir aprender/fazer alguma coisa de útil ao invés de continuar se queimando, como nos últimos dias?

    Abraço,

  14. Pascoal Says:

    Estou escrevendo de dentro de um proxy, dai as letras sairem estranhas, seu blog por alguma razao e bloqueado para mim, talvez em virtude do baixo nivel interlectual aqui existente :lol: , tenho que fazer malabarismos aqui para entrar em muitos sites, no seu entrei por curiosidade, um amigo da Unicamp passou o link

    E bom saber que voce esta se divertindo com as besteiras que escreveu, sera mais divertido ainda quando voce for aos poucos sendo relegado pela comunidade e a nao ser chamados para palestras.

    E nao preciso ficar procurando mais nada aqui li o suficiente para saber que voce se trata de um sujeito no minimo sem moral para julgar ninguem.

    Fala tanto em KDE e Gentoo e para entusiastas e se esquece que o Debian que usa e tambem e para entusiastas.

    Tenho muitos amigos mineiros e todos sem excessão sao inteligentissimos isso aliados a uma humildade que a gente fica ate envergonhado, mas voce de forma alguma e inteligente e muito menos ainda e humilde, voce e um mineiro que deu errado.

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