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Hackers

Acabei de ler nos últimos dias, finalmente, o clássico e frequentemente citado livro Hackers, do Steven Levy. Não há discussão sobre cultura e ética hacker que não faça pelo menos uma referência a esse livro. Poucos meses atrás a editora O’Reilly lançou uma nova edição do livro, que inclui um novo apêndice, em que o autor revê rapidamente o estado da cultura e ética hackers no ano 2010, 25 anos depois do lançamento do livro original.

O livro é, antes de mais nada, uma delícia de ler. Eu não costumo ser muito tolerante com clássicos difíceis de ler – não me interessa o quão importantes eles são, não consigo achar energia para terminar livros massantes (e olha que meu limite é bem alto!), mas Hackers superou até minhas expectativas mais otimistas. O livro é construído como uma série de histórias em que os personagens principais são os hackers que deram origem aos ideais e princípios éticos que culminaram nos movimentos de liberdade de software e conhecimento livre que nós conhecemos hoje.

Mais interessante para quem já conhece bem a ética e os ideais hacker, talvez, seja ver como mudaram as coisas. Quando os computadores pessoais começaram a surgir, fruto do trabalho dos hackers de hardware havia um deles, de acordo com o livro, que imbuía fortemente o espírito hacker – o hardware era documentado, aberto, exalava um convite ao hacking. Acredito que a maioria dos simpatizantes dos ideais hacker de hoje se surpreenderia ao saber que se tratava de um produto da Apple – o Apple II.

Since Steve Wozniak’s Apple adhered to the Hacker Ethic in that it was a totally “open” machine, with an easily available reference guide that told you where everything was on the chip and the motherboard, the Apple was an open invitation to roll your sleeves up and get down to the hexadecimal code of machine level. To hack away. (Capítulo 15 – The Brotherhood)

O exemplo de abertura do começo é hoje o exemplo de secretismo, apreço por tecnologias proprietárias, fechadas e falta de respeito pelos usuários, com sua adesão profunda a tecnologias projetadas para serem defeituosas. Quem diria!

Por outro lado, o livro também mostra algumas lições que a cultura hacker teve que aprender através de muito sofrimento e desilusão. Uma dessas lições é que é sempre mais fácil defender intransigentemente uma cultura de acesso ilimitado se os participantes dessa cultura forem uma elite exclusora e que trazer as vantagens e os ideais mesmo de uma ideologia de comuna para todas as pessoas (inclusive as que não necessariamente concordam com ela) passa pela negociação de contradições entre os ideais puros e as estruturas tradicionais da sociedade, capazes de escalar e fazer chegar os conhecimentos e ferramentas necessárias a todo canto, geralmente em forma de “produtos” de uma “indústria”. Foi assim, de certa forma, que o ideal hacker de que as pessoas devem ter acesso a computadores para fazerem o que bem entenderem acabou se realizando – através da criação de uma indústria da computação pessoal, que hoje está experimentando um pico, com computadores (em forma de telefones móveis) na mão das pessoas mais humildes. Mesmo que essa indústria tenha distorcido boa parte dos ideais que acompanham o ideal do acesso ao computador.

The best way to promote this free exchange of information is to have an open system, something that presents no boundaries between a hacker and a piece of information or an item of equipment that he needs in his quest for knowledge, improvement, and time online. The last thing you need is a bureaucracy. Bureaucracies, whether corporate, government, or university, are flawed systems, dangerous in that they cannot accommodate the exploratory impulse of true hackers. Bureaucrats hide behind arbitrary rules (as opposed to the logical algorithms by which machines and computer programs operate): they invoke those rules to consolidate power, and perceive the constructive impulse of hackers as a threat. (Capítulo 2 – The Hacker Ethic)

Hackers sofreram extremamente em momentos em que seus redutos elitisados foram invadidos por gente que não entendia ou não concordava com os ideais, porque de uma hora pra outra foram obrigados a rever suas convicções inclusivas, porque nunca tinham considerado que a inclusão que eles pregavam era somente para uma elite e não sobreviveria da mesma forma ao se universalizar. Há uma tensão latente que é fácil de perceber até hoje e que parece ser uma das grandes questões que nos cabe resolver.

Quando pessoas que protestavam contra a guerra do Vietnã, por exemplo, chegaram à conclusão de que o famoso laboratório de inteligência artificial do MIT (berço dos hackers originais e do projeto GNU) era parte do problema – financiado pelo departamento de defesa, produzindo conhecimento que poderia ser usado na guerra, o que era indiscutível, os hackers acabaram tendo que se utilizar das coisas que mais odiavam para evitar que os protestantes destruíssem algo que era essencial para a evolução do hacking – o computador PDP-6, que eles ameaçavam botar abaixo.

The barricades worked insofar as the protesters—around twenty or thirty of them, in Noftsker’s estimate—walked to Tech Square, stayed outside the lab a bit, and left without leveling the PDP-6 with sledgehammers. But the collective sigh of relief on the part of the hackers must have been mixed with much regret. While they had created a lock-less, democratic system within the lab, the hackers were so alienated from the outside world that they had to use those same hated locks, barricades, and bureaucrat-compiled lists to control access to this idealistic environment. While some might have groused at the presence of the locks, the usual free access guerrilla fervor did not seem to be applied in this case. Some of the hackers, shaken at the possibility of a rout, even rigged the elevator system so that the elevators could not go directly to the ninth floor. Though previously some of the hackers had declared, “I will not work in a place that has locks,” after the demonstrations were over, and after the restricted lists were long gone, the locks remained. Generally, the hackers chose not to view the locks as symbols of how far removed they were from the mainstream. (Capítulo 7 – Life)

Há numerosos outros exemplos no livro de como intransigência e a falta de conexão com a realidade fizeram mais mal à ética hacker e à saúde dos seus praticantes do que o bem que tentavam proteger, mas também há numerosos exemplos de como a postura “mão na massa” dos hackers fez com que o sonho não fosse permanentemente destruído e que a mensagem se perpetuasse. Creio que o maior exemplo de todos seja Stallman, que vendo tudo desabar arregaçou as mangas e, sem se preocupar com o possível, sem se limitar a bandeiras e palavras de ordem pôs a mão na massa e criou as condições materiais necessárias para que uma comunidade global continuasse usufruindo e criando liberdade de conhecimento.

Gostei muito do livro! Acho que é uma boa leitura e acho que serve como inspiração para que as novas gerações de hacker continuem defendendo de forma intransigente os imperativos da mão na massa, da liberdade de informação e criação, da preponderância da qualidade e do trabalho sobre os títulos e burocracia, mas sem deixar de considerar o mundo real. Serve bastante para ajudar a refletir de que forma é possível tornar inclusiva nossa cultura e mais disseminada nossa ética sem que isso implique uma redução do apreço pela qualidade e pela mestria.

Review do Itautec Infoway Note W7645 (ou carta aberta à Itautec)

Nota importante: esse post recebeu um número grande de comentários; eu acho importante lembrar que os que postaram aqui me criticando, desafiando ou atacando pessoalmente não necessariamente são da equipe do Librix ou têm ligações com a equipe; eu prefiro dar o benefício da dúvida, e convido a quem quer que leia os comentários a fazer o mesmo.

Sumário

Minha irmã é, desde há muito tempo, uma feliz usuária de Debian e GNOME. Ela costuma usar o sistema sem muitos problemas, e aprendeu a usar Gimp e outras coisas que ela inclusive procurou e instalou em Windows quando teve de usar esse SO inferior. Pois bem… minha mãe resolveu dar de aniversário para a Laura esse ano um notebook, e comprou o Infoway W7645, que vem com o sistema “Librix” pré-instalado.

Antes de continuar, um resumo do que eu achei do produto: hardware muito bom, dado o preço baixo; o processador é um Pentium Dual Core, com 1MB de cache L2. Não é nenhum centrino, mas é um bom processador. O notebook tem 1GB de memória RAM, chipset de vídeo Intel GM965/GL960, e wireless RealTek, conectada no bus USB. Eu gostei da tela, maior que 15 polegadas; o notebook tem 2 portas USB, e no geral eu senti que o computador tinha tudo do lado “errado”, o que não chega a ser um problema: o CD-ROM está do lado esquerdo, junto com as portas USB, a do modem e entradas de fone e mic, com leitor de cartão, entrada do cabo de força e saída de ar quente(!) do lado direito. Não é nada difícil o cabo de força ficar tomando ar quente o tempo todo.

O mouse pad é confortável (bem mais que o do meu HP Pavilion). As caixinhas de som deixam muito a desejar, mas nada que não se contorne com caixas externas ou um fone. A tomada, com 2 pinos redondos, é adaptada à nossa realidade. Uma coisa que me deixou meio assim é que os LEDs da porta ethernet não parecem funcionar para indicar link – talvez um OSMAR daqueles. No geral um bom notebook.

Já o software… um lixo.

O Librix é um derivado de Gentoo(!), criado originalmente pelo Laboratório de Administração de Sistemas e Segurança (LAS-IC) da UNICAMP sob o nome Tutoo Linux. Rodando com um kernel 2.6.22, ele usa um KDE versão 3.5.x, e a maior parte do sistema é instalada com o sistema Portage, do Gentoo. Alguns softwares, incluindo diversos softwares proprietários como o Skype, Flash e Java e alguns livres, como o Firefox, são instalados no diretório /opt; e viva a FHS.

Um ponto quase positivo é que na página do Librix é possível encontrar links para baixar os “fontes”. Infelizmente isso não parece ser possível para a versão 3.0, que acompanha o notebook em questão.

Analisando o Librix

Eu acho sensacional ver fabricantes de hardware finalmente pré-instalando sistemas GNU/Linux. É bom saber que o imposto Windows está deixando de ser obrigatório. Agora… quem me conhece vai provavelmente imaginar que eu fiquei tonto de pavor quando vi tudo isso: eu não sou um grande fã de Gentoo, nem de KDE, mas principalmente não de software proprietário que teoricamente não pode ser redistribuído como está sendo feito.

No primeiro boot o Librix pede que você configure uma senha de root e crie usuários. Ele te diz em uma mensagem proeminentemente colocada que você não deve usar root para tarefas cotidianas. Depois de responder a isso tudo ele te deixa logado como root no seu KDE. Quando você faz logout o KDM está com root como o usuário já escrito. Uma forma muito boa de ajudar o usuário a fazer tudo errado.


Desktop inicial do Librix

A próxima coisa que eu tentei fazer depois do boot foi conectar-me à rede wireless aqui de casa. Eu uso um AP linksys rodando DD-WRT, configurado com criptografia WPA2-Personal. Depois de um tempo tentando entender que magias eu tenho que conjurar para que ele me mostre as redes disponíveis eu finalmente encontro habilmente escondido no menu principal, no submenu ‘Sistema’, o KWifiManager, com uma descrição tímida: Configurador wireless.


Menu do Librix

Vocês que como eu têm algum tempo de desktop livre vão adorar essa ferramenta, dada a sensação de ter voltado no tempo que ela causa. Ele torna se conectar a uma rede wireless uma coisa complicada! Clicar em um ícone, escolher a rede, digitar a senha e começar a navegar? Pra que se eu posso ter uma interface esquisita com um botão “Procurar por redes” que sempre que eu clico me mostra uma nova janela com uma lista das redes encotradas?


A loucura que é o KWifiManager

Em defesa do kwifmanager eu devo dizer que ele prontamente se conectou à rede ‘default’ de algum vizinho descuidado, embora nem sempre o gateway default ficasse corretamente configurado. Acontece que a minha rede é a de ESSID ‘emacs’. Eu clico nela, clico duas vezes, e nada… nada de o botão ‘Mudar para rede’ ficar habilitado, também. Finalmente eu tento abrir a tela de configurações que aumenta ainda mais a minha sensação de ter voltado alguns anos no tempo! Olha que bonito, eu tenho uma tela de configuração que parece um formulário do governo, em que eu posso inclusive especificar um script shell para lidar com DHCP pra mim! Sim, porque DHCP é uma coisa nova e complicada. De qualquer forma, nada feito… se isso um dia funcionar, aparentemente vai ser só com WEP, e eu não estou disposto.

Não havendo outro jeito, e já que eu já estava alguns anos no passado mesmo, peguei um cabo de rede e liguei no notebook. Com rede, então, resolvi testar o “Tutoo Portage Manager”, TPM. Chique demais esse nome. Mas então, aparentemente a Itautec não fez um planejamento muito adequado quando se trata das atualizações do seu sistema: o TPM me deu uma mensagem de erro dizendo que não conseguiu baixar um ‘novo pacote de atualizações’ e me disse para conferir minha conexão com a Internet e espaço em disco. Bom, nenhum desses era o problema, mas aparentemente o fato de a Itautec ter removido o arquivo do lugar em que ele devia estar. Clicando em ‘Detalhes’ eu me deparei com uma tela muito simples de ser entendida pelo usuário comum: a saída do comando wget dedurando o 404 Not Found.


O "gerenciador" de pacotes TPM

Por fim, achei uma coisa muito engraçada: um ls no raiz do Librix nos dá isso:


Librix:/# ls
bin dev home lib media opt root sys usr wacom_drv.so
boot etc L3031011.sw lost+found mnt proc sbin tmp var
Librix:/# cat L3031011.sw
2041L3031011 SWP LIBRIX 3.0 W7645 HD160

Hahaha… Sinceramente, né? Quando você acha que não pode ficar mais amador você encontra um driver de input do X e um arquivo txt com informações do hardware no diretório raiz. Querem me matar de rir =).

Conclusão

Eu não planejava deixar o Librix instalado no computador, é claro. Pra que deixar um frankenstein baseado em Gentoo rodando em um bom hardware? Instalar Debian Lenny nesse bichinho foi uma brisa. A única coisa que dá um pouquinho de trabalho é a placa de rede wireless, que não é suportada pelo Linux 2.6.26; bastou fazer upgrade para o 2.6.28 que eu pude usar o NetworkManager do meu GNOME e voltar a me sentir definitivamente no ano 2009.


Desktop do Debian Lenny mostrando o Network Manager

Me assusta a Itautec gastar tempo e dinheiro e associar sua marca a um sistema tão mal-feito que só me permite classificá-lo como ‘porcaria’. Uma vergonha também para o time da UNICAMP, na minha opinião. Com Debian, Fedora, Ubuntu, Mandriva e um sem-número de outras distribuições bem feitas e que podem ser usadas sem licenciamento por aí, pra que contratar um time de pessoas que aparentemente não sabe o que está fazendo para criar um sistema de quinta categoria? E não me venham com a mentirada do 100% nacional. Eu não me importo se vocês acham que ‘nacional’ é melhor, e 100 é um número grande demais.

Posso parecer um pouco negativo, e minha crítica pode parecer pouco construtiva, mas o fato é que esse tipo de trabalho amador (mesmo que o manual do Librix o chame de ‘profissional’, a realidade é que ele parece ter sido feito por gente que não sabe o básico) acaba por causar uma fama ruim para o GNU/Linux: os usuários não costumam saber que ao invés do KDE existe o GNOME, e que ao invés do frankenstein existem distribuições bem-mantidas, e acabam colocando tudo num mesmo balaio: “Linux não presta”, dizem erroneamente. Eu ouço isso direto, e quando vou saber a pessoa conheceu “Kurumin”, “Satux”, “Librix” e outras porcarias que insistem não só em usar KDE, que não é um desktop adequado para uso de massa, na minha opinião, mas em criar uma infra-estrutura muito mal-feita por baixo.

Então, Itautec, parabéns pela iniciativa, e pelo bom hardware e, por favor, comece a pré-instalar uma distribuição de qualidade, por favor.

Nota sobre KDE: KDE não é um desktop ruim, per se, mas foca muito mais em flexibilidade, configurabilidade e features para “power users”, o que o torna ideal para entusiastas e para diversos geeks, mas complicado e presente demais para alguém que não se interessa por desktop; um bom desktop para essas pessoas “some” o máximo possível, deixando o usuário fazer o trabalho dele. Em defesa do KDE, o pessoal do Librix poderia ter feito uma instalação muito mais bem-feita do KDE, e ter usado o KNetworkManager.