Regulamentação da profissão

Eu sei que estou atrasadão pra comentar a proposta de regulamentação da profissão de analista de sistemas, mas eu pensei muito a respeito nos últimos tempos e queria expôr minha opinião. Lendo o texto aprovado pela CCJ, o que me vem à cabeça é o quão limitada e de visão de pouco alcance é a lei proposta. Ela me soa assumindo que todo tipo de desenvolvimento feito no Brasil é relacionado a “tecnologia da informação”, aqueles sistemas cheios de cadastros, que em geral são formados por um banco de dados SQL e uma interface (mal-)feita para manipular o banco, por grandes times de profissionais meia boca num modelo de “fábrica”.

Lendo o texto você consegue imaginar desenvolvimento de sistemas operacionais, compiladores, interfaces de usuário revolucionárias, ou qualquer outra coisa não-TI, feita por um time pequeno, de gente extremamente qualificada (e com isso eu quero dizer gente competente mesmo, não com títulos), fazendo um trabalho altamente técnico? Eu não. Mas a coisa que mais me faz achar a lei estranha é isso:

É privativa de Analista de Sistemas a responsabilidade técnica por projetos e sistemas para processamento de dados, informática e automação, assim como a emissão de laudos, relatórios ou
pareceres técnicos.

Sabe o que eu leio nesse parágrafo? Eu leio o seguinte: o governo e algumas empresas são incompetentes e têm perdido muito dinheiro por não saber contratar desenvolvimento de software, as empresas de software são incompetentes e preferem mascarar processos e contratar gente incompetente pagando pouco a fazer um trabalho sério de desenvolvimento e gerência de projetos. Para resolver isso, nós colocamos a culpabilidade jurídica pela falha no profissional, e torcemos pra tudo melhorar. Alguém mais cansou de ver essa realidade no governo?

6 thoughts on “Regulamentação da profissão”

  1. Isso faz parte da cultura judaico-cristã ocidental. Tem um filme meio tosco – que passou na Band esses dias – chamado Sol Nascente, com o Sean Connery e o Wesley Snipes. Em uma cena, alguém fala a diferença entre uma empresa ocidental e uma empresa oriental. Em uma empresa oriental procura-se detectar o problema e, em seguida, resolvê-lo. Na visão ocidental, contudo, procura-se detectar um culpado – mesmo que ele não seja culpado – para julgá-lo e condená-lo. O problema? Ah, isso é apenas um detalhe…

    Eu não estudei mais de 10 anos da minha vida para ser “responsável” (o que na visão de nossos congressistas significa quem assinou um papel) por um projeto que será desenvolvido ou por trabalho escravo / ilegal ou por offshore outsourcing.

    Finalmente, uma última observação: um dos “cabeças” desse projeto é o mesmo senador que está tentando criar um AI-5 digital: Eduardo Azeredo, do PSDB de Minas Gerais.

    Abraços

  2. Minha experiência no trato com empresas orientais não confirmam o que você diz, Robson. Eu tive experiências muitos similares às minhas experiências brasileiras prestando consultoria para empresas orientais, na verdade. Triste, mas eu acho que a idéia de que eles primeiro entendem o problema e depois resolvê-lo tá mais pra romantismo =(.

  3. Sabe o que eu vejo nessa lei? Estão regulamentando a profissão de analista para terem a quem culpar? Sim. Mas é pela qualidade dos softwares desenvolvidos? Não.

    Deixa eu explicar:

    A maioria dos sistemas de gestão que existe por aí possui “recursos” para possibilitar sonegação de impostos, caixa 2, entre outras coisas. De quem é a responsabilidade pela conformidade desses sistemas para com a legislação vigente? Hoje a responsabilidade recai apenas sobre a empresa usuária do software, quando, e se, esta for descoberta, mas não há nada que impeça uma empresa que desenvolve softwares de implementar tais funcionalidades.

    O resto eu não preciso nem explicar.

  4. @Marcelo: não tem que culpar mesmo quem implementa não. Tem que punir quem pratica. Se o problema fosse esse, a lei devia tratar da responsabilidade de fazer o software seguir leis ser da empresa produtora do software e sua direção, não do analista; analista não é advogado. Eu acho isso um passo para trás maior ainda.

  5. @kov & Marcelo: O que o governo quer fazer é responsabilizar o desenvolvedor pelo [mal-]uso do seu produto?

    Se for assim, quando é que o governo vai responsabilizar, digamos, a Rossi pelo mal-uso das armas que fabricam? Ou a Tramontina, pelo mal-uso das facas que fabricam. Ou das montadoras de automóveis? Imagine onde isso poderia chegar — claro que nunca aconteceria, mas rende muito para a imaginação.

    Recentemente, houve um “crackdown” em empresas desenvolvedoras de software de automação comercial, bem aqui no Brasil, que implementaram recursos que possibilitavam o “caixa 2″.

    Acontece que as equipes comerciais dessas empresas estavam instruindo os clientes em como usar os recursos para esse fim. E isso, sim, é punível e inaceitável. Seria o equivalente a, digamos, a Tramontina ensinar a seus clientes finais como golpear de maneira mortal uma outra pessoa.

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