II Encontro Nacional de Dados Abertos

Semana passada ficou curta, deixei de fazer um bocado de coisa que queria e apertei o passo em outras pra conseguir passar os dois últimos dias da semana em Brasília no II Encontro Nacional de Dados Abertos, organizado pela SLTI do Ministério do Planejamento e pelo escritório brasileiro da W3C. Valeu à pena!

Em 2010 eu comecei pra coçar uma coceira pessoal com um projeto para coletar e dar melhor visibilidade ao gasto dos parlamentares mineiros com as chamadas verbas indenizatórias. O resultado foi o softwae com nome-código “Montanha”, que era composto de duas partes: 1) um web scraper que entrava em cada uma das milhares de páginas que tinham os dados com uma grande granularidade e os colocava num banco de dados 2) uma aplicação web que exibia os dados em tabelas e gráficos para facilitar a leitura.

Mais pra frente resolvi renomear o projeto para ‘Olho Neles!’ pra ficar mais amigável e registrei um domínio* (http://olhoneles.org/). Em razão desse trabalho eu fui convidado para falar no primeiro ENDA, que aconteceu em 2011, mas infelizmente não deu certo a viagem para Brasília e eu acabei sendo representado pelo Marcelo “metal” Vieira, contribuidor do projeto, que por sorte estava por lá. Fui novamente convidado agora e dessa vez deu certo!

Eu apresentando o olhoneles
Eu apresentando o Olho Neles! foto da Raquel Camargo

A abertura foi muito boa e contou com o presidente da ESAF – Escola de Administração Fazendária, onde aconteceu o evento – que fez um primeiro discurso com um alto grau de auto-crítica governamental. Começou por falar que governo bom é governo que apanha de manhã, de tarde e de noite – o que ele acha que é essencial para manter a administração pública constantemente preocupada com a melhoria e para o quê os dados abertos tem muito a contribuir. Depois afirmou que a Receita Federal é uma instituição de excelência, que recolhe impostos muito bem, mas que falta muita qualidade no gasto dos recursos angariados por ela; “não podemos passar a conta das nossas ineficiências para a sociedade sempre”, disse ele, dando um tapa de luva no próprio governo.

Depois fomos para o evento. Eu confesso que inicialmente suspeitava que o evento seria uma série de palestras falando de projetos com lançamento no futuro, mas fui positivamente surpreso: muitas pessoas estava lá para mostrar suas iniciativas já em funcionamento, com dados já disponibilizados, até mesmo seguindo um princípio de não perseguir o ótimo que é inimigo do bom. Mais de uma apresentação teve um slide com uma variação de “publish early, publish often”, claramente inspirado no “release early, release often” d’A Catedral e o Bazaar, que é uma das pedras fundamentais do pensamento hacker. Alguns citaram o primeiro Encontro Nacional de Dados Abertos como marco inicial das suas iniciativas.

Outra coisa que eu senti é que a maioria das iniciativas não foi algo fortemente institucional – algum tipo de planejameto e definição estratégica sempre era citado, é verdade, e a adequação à Lei de Acesso à Informação certamente teve um papel importante, mas as iniciativas que iam além da mera compliance me deram a clara impessão de terem partido das áreas de tecnologia, com vontade fazer acontecer. Nunca é demais ser lembrado que no serviço público há muitas dessas pessoas que amam fazer acontecer, sou feliz de ter conhecido várias até hoje =).

E conhecer gente foi como sempre o ponto alto do evento pra mim. Apesar de eu não ter feito tudo que queria – acabei deixando de contribuir com a ideia de uma cryptoparty durante o evento, acabei ficando sem assistir à BR080 no final das contas e perdi alguns debates que eu achava importantes – não fiquei muito tempo sem estar com pessoas interessantes, com boas ideias e papo que acrescentou muito pra mim. Tive mais contato com o pessoal do ônibus hacker, do grupo transparência hacker, o que foi muito interessante e proveitoso pra mim.

A minha apresentação (slides em PDF, slides em ODP) correu sem maiores problemas, tirando que eu fiz a apresentação sem meus óculos que estão sem uma das asinhas – fiquei com medo de ninguém conseguir prestar atenção no que eu estava falando por ficar incomodado com os óculos tortos. Fiquei um pouco mais nervoso que o normal de não conseguir sentir o que as pessoas estavam pensando =P.

A recepção foi boa, fiquei feliz de saber que o representante da ALMG gostou de ter um projeto utilizando o trabalho deles de expor os dados através de web services (o que simplificou muito o código do coletor da ALMG no olho neles). Também fiquei feliz de saber que a Câmara Municipal de SP já tem web services para as verbas indenizatórias – taí uma tarefa fácil pra contribuir com o Olho Neles! ;)

Durante a apresentação do representante do Senado, que parece ter uma relação bem estabelecida com o grupo Transparência Hacker, inclusive, fiquei sabendo um pouco mais sobre LexML e sobre as ferramentas que tem sido usadas para ajudar a automatizar o processo legislativo, como o LexEdit, e torná-lo mais transparente. O Jean Ferri, que foi o moderador da sessão me deu alguns detalhes de como funciona a coisa toda e eu fiquei bem impressionado, não achei que estivesse tão avançado assim.

Enfim, fiquei muito feliz de ter sido convidado e de ter participado, muito obrigado à SLTI do Ministério do Planejamento e ao escritório brasileiro do W3C pela iniciativa, keep ‘em coming!

* .org sem .br porque nossas políticas de registro de domínio são blergh e exigem que você seja uma organização formalmente registrada para registrar org.br