A incrível estória do plano que nasceu morto – Parte 1

Das coisas engraçadas que eu ouvi enquanto assistia o streaming do segundo encontro dos blogueiros progressistas nenhuma superou a resposta do Paulo Bernardo quando questionado sobre por que não se colocava banda larga sob regime público. O Ministro argumentou que o Estado não tinha dinheiro para fazer tudo sozinho, então que precisaria da ajuda das empresas privadas.

Ou o Ministro achou que o questionador não sabia do que estava falando ou não sabia ele mesmo. A diferença entre regime público e regime privado não tem nada a ver com quem faz o investimento ou presta o serviço, mas tem muito a ver com a forma que esse serviço é prestado, que metas são estabelecidas e que recursos podem ser utilizados. Diz a Lei Geral de Telecomunicações:

Art. 63. Quanto ao regime jurídico de sua prestação, os serviços de telecomunicações classificam-se em públicos e privados.

Parágrafo único. Serviço de telecomunicações em regime público é o prestado mediante concessão ou permissão, com atribuição a sua prestadora de obrigações de universalização e de continuidade.

Art. 64. Comportarão prestação no regime público as modalidades de serviço de telecomunicações de interesse coletivo, cuja existência, universalização e continuidade a própria União comprometa-se a assegurar.

Parágrafo único. Incluem-se neste caso as diversas modalidades do serviço telefônico fixo comutado, de qualquer âmbito, destinado ao uso do público em geral.

http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/leis/L9472.htm

Ou seja, se o serviço está em regime público o Estado está comprometido com assegurar sua universalização e a empresa é concessionária do serviço e tem que se pautar pela regulação do Estado no setor. Não só isso, mas poderá dispor dos recursos do FUST, como já bem lembrou João Brant. Hoje somente a telefonia fixa está em regime público, portanto só as empresas que prestam serviços de telefonia são consideradas concessionárias de serviço público, mas a prestação de serviço de banda larga não.

Então quando o participante perguntou ao Ministro: “por que não colocar banda larga em regime público?” ele não estava querendo saber por que o Estado não atuava como (único?) empresário do setor, mas sim se o governo teria bolas pra chamar pra si os deveres e a queda de braço que transformar a banda larga em serviço público concedido trariam. A própria LGT fala o que é preciso pra isso:

Art. 18. Cabe ao Poder Executivo, observadas as disposições desta Lei, por meio de decreto:

I – instituir ou eliminar a prestação de modalidade de serviço no regime público, concomitantemente ou não com sua prestação no regime privado;

http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/leis/L9472.htm

Pelo visto o governo não tem bolas pra isso, não. Aí com certeza vai vir alguém e falar de algum impedimentozinho como “a iniciativa tem que partir da ANATEL”. Todos os conselheiros da ANATEL hoje foram indicados por Lula. Além disso, se julgarem necessárias mudanças na lei, ora, façam! Não teve muita dificuldade em mudar o Plano Geral de Outorgas para permitir a fusão da Oi com a BrT, teve?

Se você é petista daqueles que gritaram ForaFHC e adoram colocar nele a etiqueta de neoliberal é um bom momento para se deliciar com as ironias de a ação do governo petista estar se mostrando menos alinhada com um Estado regulador e garantidor da universalização, mesmo que uma lei aprovada por FHC dê a ele os mecanismos para isso.

Mesa redonda

Anos atrás trabalhei num ambiente em que todos os usuários praticamente conheciam o hostname do servidor de arquivos. Usuários saberem hostnames de servidores de arquivos quase nunca é um bom sinal. Todos reclamavam constantemente do tal servidor, falando sempre de como era lento o acesso aos arquivos. Assim que entrei me informaram das medidas que já haviam sido tomadas: sempre que a reclamação ficava muito grande o administrador de rede colocava uma placa de rede de 100Mbps nova no servidor, mas isso parecia pouco resolver.

Alguns anos mais tarde trabalhei em outro lugar em que havia uma aplicação web acessada por um número bastante grande de usuários de todo o Brasil. Havia um grande porém. Apesar de eu fazer parte da equipe de infraestrutura, todo o ambiente de produção dessa instituição ficava sob a responsabilidade de uma outra empresa. A tal aplicação começou a exibir graves problemas de desempenho e como havia prazos relacionados ao preenchimento de dados na aplicação, cada dia que passava sem que muitos usuários conseguissem fazer qualquer coisa no sistema gerava um aumento considerável na preocupação dos gestores.

Ao contrário do administrador do primeiro lugar a solução da equipe responsável pela TI dessa segunda instituição era menos mão-na-massa: fazíamos reuniões em torno de uma mesa em que eram debatidas as diversas possibilidades e sugeridas possíveis soluções. Alguns achavam que o problema era que a aplicação era lenta, outros que o servidor web estava mal configurado, outros que era falta de banda. Houve quem sugerisse que se substituísse a aplicação web por uma aplicação que rodasse na máquina dos usuários, com acesso direto ao banco de dados, o que supostamente reduziria o uso de banda.

O que há de errado em ambas as histórias? Ninguém nunca havia pensado em coletar dados, medir, saber o que havia de errado para depois atacar o problema. Eles preferiam fazer o pior tipo de tratamento de problemas de desempenho: imaginar qual seria o problema e chutar soluções que pudessem saná-los.

No primeiro caso, logo depois que entramos eu e um colega, a primeira coisa que esse colega fez foi instalar um monitoramento razoavelmente completo de indicadores de desempenho de todo o ambiente de rede com o cacti. Não demorou muito para que nós descobríssemos que o problema do nosso querido servidor de arquivos estava longe de ser banda. A carga de transferência de dados nunca passava dos 30Mbps, o que é muito menos que os 100Mbps que uma única placa de rede comum à época conseguiria de desempenho nominal. Adicionar placas de rede não adiantava absolutamente nada. Nem me lembro exatamente qual era o problema, provavelmente uma soma de fatores que incluíam uma configuração pra lá de absurda do Samba e uma configuração de raid que não fazia sentido, mas isso não vem ao caso. O importante dessa história é que o remédio que estava sendo dado para nosso paciente não ajudava em nada a melhorar a doença que ele tinha ;).

O segundo caso é um pouco mais triste: depois de algumas semanas tentando brigar com a estrutura burocrática para nos permitir acessar os servidores e saber o que estava acontecendo chegamos a um indicador bastante interessante: a carga média de 1 minuto do servidor de banco de dados estava em torno de 70. A máquina se não me engano tinha somente um processador. A carga média no Linux indica o número de processos que estão na fila para usar o processador ou bloqueados por espera de I/O, em médias de 1, 5 e 15 minutos. Como nós já havíamos investigado (e até tomado o controle) dos servidores de aplicação, nossa investigação sobre qual era o gargalo naquele momento parecia ter chegado a uma conclusão: o banco de dados e/ou o que a aplicação pedia dele precisava de amor e carinho. Acontece que não adiantou nada nós termos descoberto isso: continuamos por mais algumas semanas com todo mundo correndo em círculos como galinhas sem cabeça e sem ninguém com conhecimentos adequados chegar perto de analizar o banco de dados e as consultas feitas, até que finalmente alguém mais de cima decidiu mandar todos os nossos chefes embora e fazer uma intervenção.

Depois de algumas semanas batendo cabeça do mesmo jeito, com mais reuniões inúteis em torno de mesas (mas dessa vez com outros personagens) finalmente conseguimos que alguém com poder de agir nos escutasse e consertasse o banco de dados, embora nossa demanda por melhorias na aplicação (que nossas pesquisas paralelas e sem nenhuma ajuda do DBA indicaram colocar mais peso no banco do que o necessário) tenham caído em ouvidos surdos. As mudanças feitas no banco (otimização de queries, criação de índices e views materializadas, essencialmente, pelo que minha leiguice captou) acabaram dando gás para que o sistema sobrevivesse mais algum tempo sem uma intervenção mais estrutural, que acabamos fazendo quando finalmente assumimos o controle do servidor de banco de dados também, mas essa já é uma história pra outro post de blog.

Problemas de desempenho e otimizações são aquele tipo de coisa em que a pior coisa que você pode fazer é sentar em volta de uma mesa e tentar tirar qual o problema do ar. Agir com soluções de senso comum também só dá certo se você for sortudo. Esse assunto me interessa e por isso estou pensando em fazer alguns posts falando de problemas de desempenho e otimizações prematuras que demonstram que nem sempre o que é intuitivo é a realidade e que mesmo que você tenha uma hipótese bastante plausível é melhor investigar antes de torná-la uma crença. Alguém tem histórias interessantes pra compartilhar? =)

Nota: essa é uma obra de ficção baseada em fatos reais; algumas simplificações foram feitas sem prejuízo do caso em geral

Governo Federal e a Internet. Tá me zoando, né?

Em uma nova tentativa de demonstrar que o apoio aos padrões abertos e ao software livre pelo Governo Federal está mais no discurso que nas ações o Blog do Planalto publica transcrições dos discursos da presidente em documentos no formato binário proprietário gerado pelo Microsoft Word (exemplo).

Ao tentar registrar minha sugestão de que não faz sentido isso já que discursos não passam de texto simples e poderiam muito bem ser publicados em um formato muito mais conveniente (como, tcharãn, HTML, que é usado no próprio blog) sempre me deparo com a seguinte mensagem:

Falha ao enviar sua mensagem. Por favor tente mais tarde ou contacte o administrador de outra forma.

Muito bem. Qual exatamente é a outra forma? Já que eu não achei uma, vai em forma de blog e mensagem no (argh) twitter, imagino.
Blog do Planalto me ajudando.
Como se eu já não estivesse chateado o suficiente com a forma como o governo se relaciona comigo pela Internet (estou olhando pra você também IRPF), recebo hoje um email:

From: Ministério da Saúde
To: gustavo@noronha.eti.br
Subject: Dengue. Se você agir, podemos evitar.
Date: Wed, 23 Feb 2011 01:00:22 +0000 (02/22/2011 10:00:22 PM)

Nham. O email é da campanha contra a dengue, mas vários links apontam para URLs no domínio dilma.com.br, como você pode ver na cópia do email que eu coloquei aqui. Eles de fato levam pra página da campanha, mas não é estranho? Exemplo:

<p>Caso não queira mais receber e-mails, clique <a href=”http://dilma.com.br/page/m/3ef9c647/5f18969f/7fea378b/25000d2e/1178116369/VEsE/”>aqui</a>.</p>

E o domínio é de fato registrado para a pessoa física Dilma Vana Rousseff:

kov@couve:~$ whois dilma.com.br | head -n 13 | tail -n 4
domain: dilma.com.br
owner: DILMA VANA ROUSSEFF
ownerid: 133.267.246-91
country: BR

Tendo em vista que eu não me cadastrei em lugar nenhum para receber emails do Ministério e que é muito estranho o domínio pessoal da Dilma ser usado na campanha da dengue do Ministério, eu quis contactar o Ministério da Saúde a respeito. Aí eu fui no lugar óbvio: Fale conosco do site do Ministério. Isso nos leva para uma página onde se pode registrar uma mensagem, depois de clicar uns links sobre ter entendido os termos. Acontece que essa é a página:
Site de fale conosco da saúde me ajudando muito.
*clap* *clap* *clap*

A Claro, o CMI, a justiça e eu

Há alguns meses o pessoal do Centro de Mídia Independente (CMI) começou a receber relatos de usuários que não conseguiam acessar seu site. Os administradores de sistema do CMI tentaram localizar algum problema na infraestrutura do site mas não parecia haver nada de errado. Não demorou muito para identificar um padrão nos usuários que reclamavam: eles eram usuários da NET e da Claro 3G.

Muitos usuários ligaram e reclamaram, é claro, mas tanto NET quanto Claro negavam qualquer tipo de bloqueio e diziam aos usuários que o problema era com o site do CMI. Depois de muita insistência e de uma notificação extra-judicial enviada pelos advogados do CMI à Claro ficamos sabendo do real motivo:

Trata-se de um processo movido pela Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho ontra a Associação dos Rodoviários Aposentados e Pensionistas de Minas Gerais e o Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Belo Horizonte. Você deve estar se perguntando onde entram o CMI, NET e Claro nisso né? Aparentemente o juíz decidiu que uma matéria publicada no CMI tinha que ser retirada do ar e decidiu que quem devia retirar do ar a matéria eram as empresas de comunicação! O CMI não chegou sequer a ser comunicado dessa decisão.

Olhando por esse lado Claro e NET são vítimas da estupidez da Justiça brasileira, é verdade. Mais uma decisão vergonhosa da Justiça brasileira – bloquear um site para todos os brasileiros já seria ridículo, mas bloquear para usuários de algumas operadoras é a coisa mais absurda que eu já ouvi falar. Eu troquei de operadora de celular de qualquer forma e vou explicar por quê: em primeiro lugar não há nenhum sinal de que as operadoras tenham recorrido dessa decisão para guardar seus interesses e os de seus clientes. Em segundo lugar elas estão fazendo um péssimo trabalho de informar os clientes corretamente a respeito do problema.

Quando eu liguei na ouvidoria da Claro para registrar a razão da minha saída da operadora a atendente que conversou comigo me pediu o endereço do site e tentou acessar, juntamente com seu chefe e me disse: “Aqui não funciona esse site; tem certeza de que o endereço está certo? O site deve estar caído.” Ao que eu revidei: “É óbvio que vocês não vão conseguir acessar. Vocês estão dentro da rede da Claro, que bloqueou o acesso ao site, como eu já disse. Se vocês tentarem de algumas outras operadoras vocês vão conseguir.”. Depois de muito custo e só porque eu já tinha avisado que ia cancelar o serviço a atendente chegou na informação correta: o processo judicial que obriga a Claro a bloquear o site inteiro se precisar.

Eu expliquei que esse comportamento não é aceitável pra mim, que a Claro devia ter pelo menos feito um trabalho muito melhor de informar os clientes do problema real (redirecionando o endereço para uma página com as informações, por exemplo), já que até para os funcionários da Claro, como eles puderam ver, o que parecia era que o site estava fora do ar – o que não era verdade. Todos os relatos que eu vi de contato tanto com a NET quanto com a claro tiveram esse mesmo desenlace, com muitos deles não chegando à informação verdadeira.

Hoje eu consigo acessar o CMI de todas as minha conexões com a Internet de novo e recomendo a quem não estiver ainda conseguindo a trocar de operadora/serviço de Internet. É fácil com a portabilidade e serve como protesto contra essa estupidez. Não deixe de registrar na ouvidoria o motivo!

O pior cego é aquele que não quer ver

Cegueira ideológica e Tribalismo

Muita gente repete que o pior cego é o que não quer ver, mas muito pouca gente me parece refletir a respeito do que isso quer de fato dizer. O Mark Shuttleworth fez há pouco tempo um post em seu blog que eu acho que vai no ponto exato da questão quando fala de algo que ele chama de “tribalismo“.

Eu tenho chamado esse comportamento de “cegueira ideológica”, mas acho que vou adotar o termo dele, que é bem mais simples e acho que bem mais correto, porque não se trata apenas de ideologia! Ele fala de 2 tipos de argumento que aparecem muito nos discursos tribalizados: “o outro pessoal nunca fez nada” (muito comum nas campanhas políticas, inclusive) e “evidência que contraria minha crença/visão não conta”.

Esse tipo de comportamento tribal aparece nas mais diversas áreas da nossa vida. Torcedores de futebol, defensores de uma determinada tecnologia ou ideia, militantes de um partido (ou, no Brasil, indivíduo!). Recentemente várias coisas interessantes aconteceram que me fizeram pensar mais e mais nesse tipo de comportamento.

O mais recente foi o processo movido pela Oracle contra o Google por violação de patentes relacionadas ao Java no Android. Não é segredo pra ninguém que eu não gosto de Java. Esse meu desgosto pela tecnologia é multi-facetado: eu não gosto da sintaxe, acho que tecnologias Java costumam complicar muito mais do que o necessário e pra piorar toda a situação nós não tínhamos uma implementação livre. Meus problemas com a tecnologia foram diminuindo com o tempo em razão de vários progressos que foram feitos – VMs livres começaram a aparecer, a própria Sun liberou as partes que podia da sua VM e por aí vai. Gostando ou não, eu acho importante que Java seja uma das ferramentas disponíveis para a realização da liberdade de software e vejo na ação da Oracle uma grande ameaça que precisa ser rechaçada.

O Java é Livre! Oh really?

Muitos anos atrás, no entanto, era comum encontrar gente que se dizia defensora de Software Livre advogando uso de Java – numa época em que nós sequer tínhamos uma implementação livre da VM e das bibliotecas básicas. Um dos principais argumentos era que a especificação era aberta e construída de forma aberta, também. Eu acho ambas as afirmações muito discutíveis, mas como elas são irrelevantes para a discussão atual não vou aprofundar agora.

Com o surgimento do .NET, seguido do Mono, uma alternativa viável ao Java como linguagem de alto nível baseada em uma VM poderosa começou a se desenhar – e com uma implementação livre! Aplicações úteis e interessantes começaram a aparecer no desktop livre, coisa que nunca houve com Java. Não demorou quase nada para esses defensores de Java caírem de pau no Mono, é claro – .NET é uma tecnologia da Microsoft, recheada de patentes, certamente, diziam. A Microsoft vai querer destruir a comunidade de SL na primeira oportunidade – assim que dependêssemos o suficiente do Mono. Eles não estavam errados, note, eles estavam muito certos e embora os riscos tenham sido diminuídos com o tempo por várias razões eles ainda são bem reais! Mas os mesmos riscos que eles viam no Mono também existiam para o Java, sempre existiram, mas eles se negavam a ver ou concordar. “A Sun é muito mais comprometida com a liberdade que a Microsoft” diziam eles. Yeah, sure.

Eu não estou argumentando que eles deviam deixar Java de lado, note bem. Eu acho que eles deviam sim, como fizeram, ter lutado para que Java fosse mais uma opção para nossa comunidade criar e exercer suas liberdades. Eu respeitaria qualquer um que dissesse “Sim, eu reconheço e assumo os riscos. Se um dia chegar a esse pior caso eu vou lutar para defender nossa liberdade frente às patentes”. Agora, 6-10 anos depois, chegou a hora da tribo do Java rever os seus conceitos e de nós todos, como comunidade, ajudarmos na defesa do Google!

E não para por aí, infelizmente.

O tribalismo não para por aí, infelizmente. É comum encontrar diversos casos em que as pessoas propagam informações a favor do que defende sem verificar (se é a favor tem que estar certo, né?) e de achar cabelo em ovo nas informações que são contra seus defendidos ou a favor dos seus “inimigos” (da época). Isso aconteceu no caso em que se divulgou por exemplo que o Windows 7 usava código do Linux, quando na verdade uma ferramenta secundária que sequer é distribuída junto com o Windows 7 usava código GPL de uma outra ferramenta publicada no Codeplex da Microsoft, que não tinha nada a ver com o Linux.

Isso também acontece sempre nas campanhas políticas, é claro e eu não paro de rir de gente fazendo defesas absurdas e fazendo a caveira dos inimigos de ocasião. Isso acaba por fazer que os debates sobre o que as pessoas defendem de fato fiquem em segundo plano, substituídos por etiquetas simplistas e simplificadoras e por discursos populistas de todos os lados.

Outro alvo recente de tribalismo é o Google. Nosso aliado em várias frentes é inegável que o Google também tem várias atitudes que ferem a sua promessa de não ser “evil”. Apesar disso, há aqueles que fazem uma defesa quase incondicional do Google, assim como há aqueles que só fazem a caveira.

É preciso ver que, como qualquer organização grande o Google tem várias forças puxando para lados distintos. De um lado, um grande usuário de tecnologias livres, um grande desenvolvedor de softwares livres, com contribuições de vulto tanto em projetos novos como em projetos existentes, um garoto propaganda da liberdade e abertura na web, inclusive com enormes contribuições para esse objetivo. De outro lado, falta de sensibilidade no tratamento da privacidade de seus usuários, mudanças de posição inesperadas com relação à política de neutralidade da rede, discriminação de minorias, síndrome do “Not Invented Here”, com projetos novos sendo criados ao invés de colaborar com já existentes e por aí vai. É importante reconhecer e tratar cada uma dessas facetas de forma separada, sem fazer defesas ou caveiras incondicionalmente.

Veja também

Alguns outros posts interessantes sobre o assunto Oracle vs Google:

Google’s User-Agent sniffing makes one more victim

Remember when I said Epiphany worked out of the box with Youtube’s WebM? Well, Google has recently decided to deny us WebM, like it did before with Wave, the Pacman doodle, and who knows what else? \o/

Wouldn’t it be nice if Google practiced what they preach?

Update: so it looks like my message went through to the people who needed to see it, and they found a filtering error in the User Agent sniffing code that made it think Epiphany was a too old Safari – I’m told the change will land in Youtube soon, thanks for those paying attention, and working on this! User Agent sniffing keeps being a problem, of course, and there are other stuff to fix, so I will probably still push my patch to spoof the user agent to google services which are still mishandling Epiphany, but it’s good to see some progress being made!

Update2: I started shipping a patch to send the Chrome user agent string to google domains in the Debian package for WebKitGTK+, when the “enable-site-specific-quirks” setting is enabled (which is the case for Epiphany); I already found something we were missing out on =D Google Images seems to have been greatly improved, and now faking being Chrome we are also able to enjoy it:

Google Images improved

A melhor energia do Brasil não é assim tão boa no meu bairro

A CEMIG é a empresa prestadora de energia elétrica em Minas Gerais. É uma empresa de capital misto controlada pelo governo do Estado. Recentemente a CEMIG tem feito propaganda com frequência ultimamente por ter ganho grande reconhecimento no mercado financeiro como empresa que se preocupa com uso racional de energia. O slogan da campanha é “A melhor energia do Brasil”.

Tudo isso me deixa, como mineiro, muito orgulhoso, mas minha experiência pessoal com a qualidade da CEMIG poderia melhorar bastante. Além do fato de que o bairro Ouro Preto, onde estou morando agora, tem quedas de energia frequentes por quase qualquer chuva e de nós já termos ficado 15 horas sem energia num final de semana, há algo que me preocupa mais; isso aqui:

A melhor energia do Brasil

Esse cabo está aí pendurado há alguns meses. Parece ser a borracha de isolamento do cabo que saiu em parte do cabo. Já há mais de um mês eu liguei para a CEMIG e avisei do cabo, mas tudo que eu recebi de resposta foi um ‘avise às pessoas que não é pra encostar no cabo’. Essa primeira foto é do dia 2 de abril, bastante tempo depois do aviso. O cabo continuava lá no dia 17 (foto a seguir), e continua lá hoje.

Continua lá

Dessa vez reclamei foi pra ouvidoria, vamos ver se eles vem tirar esse cabo dali.

Um exemplo de Brasil

No começo dessa semana, o programa CQC (de quem eu ainda espero alguma piadinha pela mancada do Bóris, btw, porque isso é uma vergonha ;D) nos prestou um serviço importantíssimo: colocou nua e cruamente na TV um flagrante de funcionários públicos se apropriando de uma doação de TV de plasma feita pelo programa com um GPS dentro para que se soubesse onde foi parar. Mas não sem antes ter a exibição censurada por uma juíza sem noção que acatou um pedido de liminar do prefeito da cidade de Barueri, Rubens Furlan (PMDB – ugh).

Santa tecnologia, Batman. Mas o mais triste dessa história não foi essa instância em si ter ocorrido. O triste é que esse é só um exemplo do que acontece praticamente todos os dias, em praticamente todos os lugares do Brasil. O triste mesmo é que a chance de que cada um de nós tenha gente próxima – amigos, familiares que fazem coisas do tipo é muito alta.

E o pior mesmo é que essas mesmas pessoas reclamam da corrupção dos políticos, talvez tenham se indignado com o exibido no quadro, mas no dia seguinte foram para seus empregos públicos torrar dinheiro dos cidadãos imprimindo convites de festa dos filhos na gráfica do órgão, deixando de declarar ligações pessoais feitas em telefones celulares funcionais, passando gente conhecida na frente em serviços públicos, dando carteirada para entrar em shows e bares. Quem não conhece gente que, assim como as pessoas exibidas na reportagem, confundam o público com o privado? Eu conheço e conheci um monte na minha vida, até aqui.

Quando eu trabalhava no Ministério do Desenvolvimento Social, por exemplo, indo de um prédio a outro no carro do Ministério, para uma reunião, presenciei uma das cenas mais insólitas da minha vida: o motorista se gabava de como trabalhava “voluntariamente” num hospital público e falava de como estava se “agarrando” a um deputado que o poderia oficializar como funcionário no hospital. Para demonstrar quão bom ele era para o hospital, descreveu casos em que passou gente na frente em filas de atendimentos. “Que benção!” foi a resposta dos outros funcionários. “Benção”? Pra mim isso é crime. Claro que ele ajudou algumas pessoas, mas em detrimento de quantas? Pra exemplificar numa escala de dano reduzida, sabe aqueles motoristas que, numa fila, saem para o acostamento e voltam à pista quando encontram um obstáculo no acostamento? Eles se deram bem, mas todos os carros que estão entre a posição que eles ocupavam e a nova posição foram prejudicados. Que direito eles acham que têm de causar esse dano a tantos?

Num evento de Software Livre em Goiás que participei um tempo atrás conheci um policial civil que se gabava de encher o computador do trabalho de vídeos e músicas e de dar carteirada para entrar em shows e bares. Na primeira menção nossa de que isso não era muito bacana ele insinuou rapidamente que era melhor nós tomarmos cuidado com o que iríamos falar, porque ele nos poderia prender por desacato.

Eu poderia continuar dando exemplos um atrás do outro aqui. O triste não é o caso de Barueri. O triste é saber que isso é praticamente a regra, que se você vai contra a regra é em geral considerado “bobo” e principalmente que a maioria das pessoas que são corruptas não consideram sua corrupção “tão ruim quanto” a dos políticos e ainda tem a cara de pau de reclamar dos deputados que fazem como eles e se aproveitam da máquina, ou de ficar pegando no pé do presidente da República. Sinceramente, a corrupção é muito mais danosa e muito mais difundida pra baixo do segundo escalão.

No Brasil, se já não bastasse o gigantesco corporativismo dos funcionários públicos, pessoas que não fazem parte do funcionalismo acabam por defender os marajás (pelo menos quando não estão na fila de uma repartição). Por quê? Porque o sonho brasileiro é ser funcionário público, ter estabilidade garantida e poder trabalhar quando quer, então não existe interesse em tirar vantagens da posição que é cobiçada.

O que o CQC nos prestou foi um serviço importantíssimo. Foi uma injeção de indignação, que sempre faz falta para lembrar de quanto ainda falta para nós evoluirmos como sociedade. Espero que eles exponham mais e mais casos como esse. Quem sabe as pessoas não começam a ter vergonha de serem corruptas?

E ao Rubens Furlan eu quero desejar que reconsidere o significado dos seus vinte e quatro anos de “luta pela democracia” e se olhe no espelho. Babaca.

Banco do Brasil, tô achando que é tchau

Eu tô há algum tempo ficando cada dia mais chateado com o Banco do Brasil. Apesar de usar GNU/Linux internamente, e aparecer na mídia como uma instituição aliada do software livre, o banco sempre foi um pé no saco pra quem quer usar softwares e protocolos abertos. A idéia de girico da equipe do BB de usar java para uma “solução de segurança” sempre me deixou sem entender. Por muito tempo isso me obrigava a usar software proprietário se quisesse usar o banco online. Resultado: eu não usava banco pela Internet até a Sun lançar o java como software livre.

Acontece que o navegador que eu uso atualmente não tem suporte a plugins java ainda (porque, claro, o plugin do Java não é um plugin normal, como todos os outros que já funcionam), e eu uso atualmente amd64, e, caso você não saiba, a ‘solução de segurança’ do BB só funciona com 32 bits. Como todos sabem, java é portável.

Algumas coisas, como essa, eu consegui passar por cima. Por exemplo: eu estava um dia olhando uma propaganda do banco sobre recursos para o iPhone. Na hora veio na minha cabeça: mas, peraí, iPhone não tem Java! Como, então, se usa iPhone para acessar o banco? Óbvio: retira-se a solução de ‘segurança’, que sempre foi uma estupidez inútil, e se permite fazer algumas operações pelo iPhone. Não entendo muito bem por que a cisma com o iPhone, hype é foda, mas de qualquer forma, eu obviamente pensei em fazer meu próprio iPhone! Aqui vai, como!

Instale o Midori, no Debian basta instalar o pacote ‘midori’. Abra o Midori e vá no menu ‘Edit’, opção ‘Preferences’, e na aba ‘Network’ mande o Midori se identificar como ‘Custom’. Adicione a seguinte linha no campo de texto:


Mozilla/5.0 (iPhone; U; CPU like Mac OS X; en) AppleWebKit/420+ (KHTML, like Gecko) Version/3.0 Mobile/1C25 Safari/419.3

Pronto, você já pode logar no BB online pelo Midori, como se fosse um iPhone. Ḿas pra eu acessar pelo meu navegador normal não pode, né, BB?

Meu iPhone

Nos últimos tempos, minha relação com o banco ficou mais complexa: eu recebo meu pagamento pelo trabalho que faço para a Collabora por transferência internacional, e isso faz de mim um exportador de serviços (que chique, hein?), o que me obriga a usar uma estrutura similar a de empresas no trato com o banco, incluindo usar o horrível, péssimo, mal feito e bugado “Gerenciador Financeiro aplicativo”. Feito na maravilhosa linguagem Java™, que como todos sabem é Write once, debug everywhere™.

Esse pedaço de fail é extremamente chato de mexer, muito complicado. A única coisa fácil que dá pra fazer nele é errar. Mas até funcionava no meu amd64 (a solução de segurança não tava nem aí que ela falhava). Acontece que no último mês eles mudaram a forma como isso é feito, e agora não funciona mais com amd64, então eu precisei usar uma vm 32bits pra fazer o que eu preciso fazer.

Como isso já está beirando o ridículo, e eu sei que a única coisa que me causa esses aborrecimentos é a incompetência técnica do Banco do Brasil, acho que chegou a hora de repensar definitivamente qual banco usar para minhas necessidades bancárias. Sugestões?

Hoje eu acordei com uma vontade…

… de saber onde foi parar o código que o Katatudo prometeu por volta de 2004.

Pelo jeito vamos ficar sem, mesmo. Hoje em dia o Leonardo Cardoso, que nos tinha prometido que o trabalho estava sendo feito já saiu da empresa sem cumprir a promessa, e até a minha única esperança e que algo fosse sair, o Cristiano Anderson, parece já ter ido para pastagens mais verdes, também sem cumprir a promessa que fez =(.

Mas agora acho que não precisa mais, né? A propaganda já foi feita, a empresa já foi comprada, todo mundo já pôs o que queria no bolso, uma outra geração de gente pra ser enganada já entrou no mercado. Se esse fosse o único caso de cara de pau no software livre brasileiro eu ficava até feliz. Nossa vontade de querer acreditar em tudo, junto com nossa capacidade de esquecer de tudo bem rápido torna esse tipo de coisa possível. Também torna possíveis alguns discursos políticos muito engraçados, btw.