Blog do Planalto e outros avanços

Eu acompanhei o minuto do lançamento do blog do Planalto – estava acordado quando o puseram no ar. Antes de mais nada, gostaria de dar os parabéns para meus amigos que trabalharam nisso; trabalho bem-feito. Tenho certeza de que eles estão lá brigando duro pras coisas saírem do jeito certo =). Tenho um pouco de experiência na sustentação desse tipo de sítio extremamente dinâmico, com design carregado (2.2MB!) e grande número de acessos, e sei que o pepino é grande.

O lançamento do blog do Planalto me tirou do estado ‘estou pensando em blogar’ pra o estado ‘estou aqui escrevendo o post’. Eu pretendia escrever algo depois de observar outros acontecimentos recentes, mas quis também dar um tempo pra passar a chuva de reações iniciais ao blog do Planalto, dando tempo pra os blogueiros de hype pularem pro próximo hype. Esses acontecimentos me deixam ao mesmo tempo feliz com o avanço das instituições brasileiras no que diz respeito ao uso de tecnologias para comunicação, e triste porque algumas questões importantes não tem sido levadas em consideração. Deixa eu falar das duas coisas.

Feliz

Feliz, porque eu acho que essas ferramentas de comunicação direta são importantíssimas para uma administração de fato transparente. Quando se tira do caminho os intermediários, se ganha tanto do lado de quem envia a mensagem quanto do lado de quem a recebe.

Quem quer divulgar a mensagem ganha muito no quesito exatidão. Qualquer um que tenha dado uma entrevista sabe da enorme capacidade que a mídia tem de truncar a mensagem para dar um ar mais literário, ou para ‘simplificar’. Eu lembro em, se não me engano, 2007, quando fui entrevistado sobre a questão da lei do Azeredo, a repórter insistia em dar foco à segurança dos dados dos usuários (a lei exigia dar nome completo, CPF e num sei o que mais para acessar a Internet), que ficariam mais facilmente roubáveis por ‘hackers’. Não adiantou dizer a ela que a questão era muito mais relacionada à liberdade de permanecer anônimo, e à privacidade – a repórter aparentemente tinha a pauta pronta, só precisava de imagens de alguém falando o que ela queria.

Quem ‘recebe’ ganha por poder ter acesso às informações mais cruas. Não é tão mais necessário ler diversos veículos e tentar achar os fatos no meio das opiniões. É claro que muita gente vai continuar sendo superficial e acusando quem ‘não gosta’ sempre, mas onde tem gente tem isso ;). A outra grande vantagem é, em geral, a possibilidade de as pessoas interagirem – colocarem perguntas, comentários, fazer protestos, em mídia similar à usada pelos que enviaram a mensagem, mesmo que não seja exatamente no mesmo espaço. Antigamente você podia publicar uma carta ou coluna em um jornal ou revista, mas a exposição disso é muito limitada. É uma época interessante (ou está se tornando) para entender melhor o que significa ‘opinião pública’, eu acho.

Um exemplo interessante desse dinamismo é que o pessoal d’A Voz do Brasil me respondeu uma pergunta feita publicamente bem rapidinho. Comparativamente, eu prefiro muito esse modelo ao modelo de Ouvidoria =). Aparentemente o lançamento do Blog do Planalto sem suporte a comentários é a preocupação do momento na “blogosfera” brasileira. Embora eu ache que comentários serão uma adição bem-vinda, quando houver maturidade suficiente de todos os lados, o fato de o blog não ser lá tão blóguico é o que menos me incomoda.

Atualizado: por falar nisso, um tal Pedro Markun fez uma instalação de WordPress copiar todo o conteúdo do Blog do Planalto, usando o fato de que ele está todo sob Creative Commons, e abriu comentários, criando um espaço de discussão. Eu achei muito bacana que ele disse ter feito isso não como forma de protesto, mas como forma de aproveitar a liberdade que estava sendo dada. Agora estão estudando formas distribuídas de moderação dos comentários. Parabéns! A gente precisa de mais ativistas como ele!

Triste

Triste, em geral, porque as práticas com relação à adoção de tecnologias continuam as mesmas de sempre, e é isso que tem me incomodado. O respeito a padrões abertos é pequeno, serviços de empresas são escolhidos sem nenhum critério, dando em geral mais publicidade às ‘marcas’ estabelecidas. A primeira coisa que eu notei quando entrei no blog do Planalto ontem foi o monte de ‘Youtube’, ‘Facebook’, ‘WordPress’ e ‘Google’ espalhados pela página. Com ‘Youtube’ vem de brinde ‘Adobe Flash’, claro.

Não mudou muito da época em que os entes do poder público escolhiam Windows como plataforma, faziam software pra Windows, em linguagens e tecnologias pouco ou nada portáveis, que iam acabar atrapalhando depois de anos uma possível migração para outras plataformas, e exigindo que os cidadãos utilizassem softwares proprietários de empresas específicas. Até hoje o governo ainda exige que muita gente use Windows e programas proprietários como o usado para declaração do imposto de renda, por exemplo.

Outros exemplos disso são as inúmeras instituições criando perfis ‘no Twitter’, como o Ministério da Cultura, Ministério do Turismo, SERPRO, Dataprev. Ninguém parou pra pensar ainda que o Twitter não é um espaço público, é um serviço específico, de uma empresa privada específica, com termos de uso não lá muito bons, que não distribui o software que utiliza com uma licença livre, e que isso é uma forma de as nossas instituições a publicizarem de graça. Nada contra as instituições se utilizarem de microblogging – eu na verdade acho isso ótimo!, mas não precisa ser fazendo propaganda dessa empresa específica, precisa?

A Voz do Brasil além de usar Twitter decidiu usar uma ferramenta gratuita que coleta estatísticas de busca em tempo real, e que posta uma propaganda em nome d’A Voz do Brasil de tempos em tempos. Imagine um órgão de governo usando Geocities uns anos atrás. Pra mim é a mesma coisa.


Marcas usadas no Blog do Planalto

Marcas usadas no Blog do Planalto editadas pra diminuir a propaganda nesse post =P. Por quê esses?

O próximo desafio é descobrir e regular que critérios se deve aplicar, e como se deve selecionar serviços como esse, ou se é algo que deve ser fornecido por estrutura própria (minha preferência é essa – há softwares bons disponíveis para isso, como o StatusNet, antigo laconi.ca). Mas considerando usar serviços de terceiros, por que não Identi.ca, por exemplo, ou uma das dezenas de serviços alternativos?

Que critérios foram usados na escolha do Twitter, YouTube, e Google Maps? Popularidade me vem a mente, e a resposta d’A Voz do Brasil que citei acima confirma, mas acho que essa é uma forma perfeita de aumentar um ciclo de mono-cultura e geração de monopólio. Outra possibilidade é que os serviços escolhidos eram os usados/conhecidos pelos criadores do blog, simplesmente. Não me parece uma boa idéia, também. No final das contas, o governo brasileiro pode estar dando sua contribuição para transformar os Googles, Facebooks e Twitters de hoje no que foi a Microsoft dos anos 90.

Convido todos a pensar sobre as questões e procurar alternativas.